8 de set de 2011

A bolsa de água quente


Certa noite eu estava fazendo de tudo para ajudar uma mãe  em  trabalho  de parto. Apesar do esforço ela não resistiu  e  nos  deixou  com  um bebê prematuro e uma filha de dois anos em prantos.
Era muito complicado manter o bebê vivo sem uma incubadora (não tínhamos eletricidade para ativar a incubadora). Também não tínhamos recursos adequados de alimentação.
Mesmo morando na linha do equador, as noites eram, não raro,
frias com aragens traiçoeiras.
Uma das aprendizes de parteira foi buscar a caixa que reservávamos a tais bebês e os panos de algodão para envolvê-los.
Uma outra  foi  alimentar o fogo para aquecer uma chaleira de água para a bolsa de água quente.
Sem demora retornou desconsolada pois a bolsa havia rompido.
Borracha  estraga  fácil  em clima tropical. "Era nossa última bolsa", disse-me.
Assim  como no ocidente se diz que "não adianta chorar
sobre  o  leite  derramado", na África Central poderia ser que “não adianta chorar sobre bolsas estragadas”. Elas não crescem em árvores, e não existem farmácias no meio das florestas...
"Muito bem", disse eu, coloque o bebê em segurança tão próximo quanto possível do fogo e durmam entre a porta e o bebê para protegê-lo das lufadas de vento frio. Mantenham o bebê aquecido.
Na  tarde  seguinte, fui orar com as órfãs que, eventualmente, quisessem se reunir comigo. Fiz uma série de sugestões que pudessem despertá-las a orar e, também, contei-lhes sobre o bebê.
Expliquei  nossa dificuldade em manter o bebê aquecido em função da única bolsa de água que havia estourado. E que o bebê poderia morrer de frio.
Mencionei a irmãzinha de 2 anos, que não parava de chorar a perda e ausência da mãe.
Durante as orações, uma das meninas de 10 anos, uma de nossas crianças africanas, orou: "Por favor, Deus, manda-nos uma bolsa de água quente. Amanhã talvez já vai ser tarde, Deus, porque o bebê pode não agüentar. Por isso, manda a bolsa ainda hoje.”
Enquanto  eu  ainda procurava recuperar o ar diante de tamanha audácia, num corolário, acrescentou:
"E  já  que,  Deus,  estás  cuidando disso, por favor, manda junto uma boneca para a maninha dela, para que saiba que também a amas de verdade.”
Como  acontece  muito  com  crianças,  me colocaram em apuros. Poderia eu, honestamente, dizer “Amém”? Eu simplesmente não podia acreditar que Deus poderia fazê-lo. A bíblia diz isso. Não há limites. Ou há?
O único jeito de Deus atender tal pedido seria por encomenda a minha terra natal, via correio. Eu estava, então, na África por quatro anos e jamais havia recebido uma encomenda postal de casa. De qualquer forma, se alguém mandasse algo, poria nela uma bolsa de água quente? Eu morava na linha do Equador.
À meia tarde, durante uma aula da escola de enfermagem, veio um recado dizendo que um carro estacionara no portão de minha casa. Ao chegar em casa, o carro havia partido, mas deixara um pacote de 11 kg na varanda.
Meus olhos lacrimejaram. Não consegui abrir o pacote sozinha, e solicitei que algumas crianças do orfanato me ajudassem. Tudo foi feito com muito cuidado para que nada fosse danificado. Os corações batiam forte.
Trinta a quarenta olhos acompanhavam arregaladamente cada ação. A camada de cima era composta de roupas coloridas e cintilantes. Os olhinhos das crianças brilhavam à medida que as distribuía. Depois viram as ataduras para os leprosos, caixinhas de passas de uva e farinha, que dariam gostosos bolos para o fim de semana.
Quando pus as mãos de novo na caixa, pasmem... “Uma bolsa de água quente, novinha em folha”, eu gritei! Eu não havia feito nenhuma encomenda nesse sentido. Rute, que estava no banco da frente, saltou e começou a gritar:
 "Se Deus mandou a bolsa, ele também mandou a boneca.”

Autor desconhecido.

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