18 de ago de 2009

Evangélicos sem igreja

Fonte: Revista Enfoque Gospel - Junho 2007

Joel Macedo

O crescimento numérico da igreja evangélica tem impressionado a todos. Entretanto, pesquisadores revelam que o grupo que mais tem crescido nos últimos anos é o dos “crentes sem igreja” – pessoas convertidas, mas que, decepcionadas com os rumos da pregação e da instituição, optaram por uma caminhada pessoal, vivida na intimidade, ou então pela formação de pequenos grupos nos lares, reeditando o cristianismo do primeiro século (ver quadro).

Após tanto crescimento – e alguns escândalos –, a igreja evangélica estará diante de uma crise? Ou estará passando por uma nova Reforma? O fato é que muitos andam descontentes com o que vêem e questionam o modelo de igreja refletido na mídia. Se este desapontamento não pode mais ser ocultado, cabe a pergunta: de que igreja os cristãos sentem falta?

A crise ética de alguns setores, abordada na edição de março de Enfoque, é um fator importante, mas não o único, que tem contribuído para um certo mal-estar no rebanho. Convertida há 12 anos, a enfermeira Carla Fontenelle dá um alerta: “Os pastores, encastelados em seus feudos, viraram celebridades intocáveis e inacessíveis, mas as ovelhinhas estão todas de orelhas em pé”.

Carla conta que já esteve à procura da igreja perfeita, mas concluiu que todas têm seus pontos fortes e pontos fracos: “Nas igrejas históricas, o estudo da Bíblia é minucioso, porém não desperta a sua fé. Aí, a gente vai para uma neopentecostal, fortalece a fé, aprende sobre batalha espiritual, enfrenta seus problemas com a Palavra, mas logo vem a pressão mercantilista e a gente percebe que nosso papel ali é o de sustentar um ministério caro”. Hoje, Carla sonha com uma igreja mais humana, onde as pessoas encontrem espaço para dividir suas fraquezas, sem medo de ficarem estigmatizadas. Ela sonha com igrejas que não abram somente no horário do culto, “onde se possa encontrar aconchego e silêncio para meditação”. A enfermeira lamenta também o distanciamento dos pastores que “ficaram muito ocupados para cuidar de pessoas”.


“Por que tanta violência, se nas grandes cidades tem tantos crentes?”, questiona a anglicana Gaynor Smith, que sente falta de uma igreja mais participativa na sociedade

Impasses como os descritos aqui acontecem mais do que se imagina. Sônia Bastos é uma assessora jurídica que freqüenta há 11 anos a mesma igreja e há seis participa de um ministério, mas conta que vem orando a Deus por uma nova denominação. “Confesso que já fui mais feliz onde eu estou. Fatos desagradáveis aconteceram envolvendo a liderança e comecei a refletir sobre a questão da árvore e seus frutos. Tenho orado, mas Deus me tem dito para esperar”.

Decepções com líderes à parte, Sônia sente falta de uma igreja alegre, “onde sinta prazer em ir e em levar as pessoas”. Para ela, a falta de comunhão entre os irmãos é um problema sério e acredita que cabe à liderança criar estes espaços de convivência.

Para casos como o de Sônia, a instrutora bíblica norte-americana Joyce Meyer tem um conselho: “Fique calma!”. Ela tem sido enfática em suas mensagens matutinas na televisão de que o cristão é que deve mudar sua atitude em relação a si mesmo e à igreja. “O mundo não vai mudar ao seu redor, as pessoas não vão mudar. Então, o melhor é você mudar! Não decolar junto, quando uma emoção quiser levantar vôo”, recomenda. Joyce gostaria de ver cristãos mais obedientes e submissos às autoridades e sugere que o livro de Watchman Nee Autoridade Espiritual volte a ser lido e estudado.


POR QUE AS PESSOAS TROCAM DE IGREJA
Maurício Zagari

Uma pesquisa organizada pelo instituto LifeWay Research, nos Estados Unidos, feita no final de 2006, mostrou as principais causas que levam uma pessoa a mudar de igreja. De um modo geral, 58% afirmaram que foram motivados a sair de suas antigas congregações e 42% disseram que a motivação estaria nas novas igrejas. Entre as dez principais causas de desagrado das congregações anteriores estão, em ordem:
1. ‘’A igreja não estava me ajudando a crescer espiritualmente’’ (28%)
2. ‘’Não me sentia engajado ou envolvido em tarefas significativas’’ (20%)
3. ‘’Os membros da igreja julgavam os irmãos’’ (18%)
4. ‘’O pastor não era um bom pregador’’ (16%)
5. ‘’Houve muitas mudanças’’ (16%)
6. ‘’Os membros da igreja eram hipócritas’’ (15%)
7. ‘’Deus não parecia estar atuando na igreja’’ (14%)
8. ‘’A liderança não encorajava o envolvimento’’ (14%)
9. ‘’O pastor julgava os outros’’ (14%)
10. ‘’O pastor parecia hipócrita’’ (13%)

Obs.: A soma não totaliza 100% pois algumas pessoas deram mais de uma justificativa para sua insatisfação.



VISÃO MERCADOLÓGICA


Na raiz da insatisfação, dois aspectos parecem sobressair quando o assunto é a pureza da mensagem bíblica, a chamada sã doutrina: o legalismo (excesso de leis e regras) e a ênfase nos bens materiais, que se convencionou chamar de “prosperidade”. Se o legalismo assusta e contribui para afastar pessoas da igreja, a ênfase na prosperidade é uma faca de dois gumes.

Se por um lado, a controvertida doutrina deu uma “espanada” no desânimo, combatendo a mente passiva dos crentes, por outro, é acusada de falsificar a mensagem evangélica, tornando-a muito parecida com as metas e ambições deste mundo. O pastor Osmar Ludovico tem seu diagnóstico: “Pregadores comunicativos, cultos bem produzidos, apoio de mídia, testemunho de empresários bem-sucedidos e de convertidos famosos... Tudo se faz para segurar os fiéis ariscos, que se tornaram consumidores exigentes, prontos para criticar e se mudar quando contrariados. A igreja se tornou um negócio, pastores se tornaram executivos, o ministério um gerenciamento”, ele afirma, temendo que esteja em curso um processo de “rendição a Mamom”, no qual a eficiência passa a ser medida não mais pela santidade e influência profética, mas pelas leis do mercado como a produtividade, performance, faturamento, profissionalismo, qualidade, nichos de consumidores e estratégias de marketing.


Eliane Cavalcanti formou a comunidade Ministério Resgatando Vidas com irmãos insatisfeitos e que se queixam de “politicagem” excessiva e do dinheiro no dia-a-dia das grandes denominações

Para Ludovico, que foi buscar no estado da Paraíba, onde reside, um pouco da pureza perdida nos grandes centros, a igreja evangélica pode ter caído na armadilha do mercado: “Passamos a apresentar um Jesus Cristo atraente, prometemos a salvação no céu e a prosperidade na terra, sem precisar renunciar a nada. Palavras como sacrifício, pecado, arrependimento, negar-se a si mesmo, foram substituídas por decretar, determinar, conquistar, restituir, saquear”, ele assinala.

No entendimento da enfermeira Carla, a onda de inquietação do mundo está conseguindo penetrar no coração de muitos cristãos pela falta de uma blindagem maior contra a depressão e o medo. “Estamos sentindo mais falta de paz do que de prosperidade e poder”.


PARECIDA COM JESUS


O produtor cultural Sérgio de Carvalho faz parte do contingente de cristãos “sem igreja”. Hoje, diz sentir falta de uma igreja “parecida com Jesus” que, segundo ele, pode estar em qualquer lugar e não apenas no templo: “O amor e a linguagem de Deus não precisam de instituição para se expressar. Podem estar nas casas ou em praça pública. Estou afastado da igreja formal, mas sou cristão na vida diária e prezo o testemunho pessoal nos negócios e relacionamentos”, afirma.

Carvalho sonha com um cristianismo que acolha o viciado, o mendigo, a prostituta e todos os pobres e doentes da terra, como Jesus fazia. “Exemplos de igreja para mim são a Comunidade S8 dos anos 70, a Renascer dos anos 80, e os ministérios Metanóia e Bola de Neve na atualidade. Fora isso, é sepulcro caiado”. Radical, ele acredita que “o joio no meio do trigo” não deve ser cortado, “pois até Judas teve um papel didático”. E complementa: “O mundo está querendo ver expressões de amor, pois não sabe mais o que é isso. Está na hora de os discípulos de Cristo mostrarem ao mundo que Deus é amor antes de qualquer coisa”.


Continua amanhã...

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